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João de Góes Manso Sayão


*João de Góes Manso Sayão Filho

Meu pai, Dr. João Góes Manso Sayão, nasceu na cidade de Vassouras (Estado do Rio de Janeiro), a 12 de Fevereiro de 1870.  
Eram seus progenitores: José Thomaz Corrêa Manso Sayão, e Laurentina de Carvalho Malta Sayão. Recebeu o nome de João "de Góes", em homenagem ao seu padrinho de batismo, conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcelos. Era o caçula da família (ao todo eram 11 irmãos). 
Nos primeiros anos de vida, quando apenas experimentava os primeiros passos, perdeu o pai; então coletor de rendas de Vassouras. Sob os cuidados de sua carinhosa mãe e das irmãs mais velhas (três das quais permaneceram solteiras), criou-se na pitoresca chácara de Vassouras, propriedade da família. 
De índole dócil e inteligência viva, cursou com facilidade os estudos preparatórios no Colégio Pedro II e ingressou em 1886 na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde veio a colar grau em 16 de janeiro de 1892.  
De sua turma, onde deixou tradição de ótimo estudando, faziam parte colegas brilhantes, como Vital Brasil, Carlos Seidi, Oscar de Souza, etc. 
Quando cursava o 5° ano de medicina, conheceu e dela se enamorou, a jovem Plácidia, filha do conhecido educador e gramático Boaventura P. Lameira de Andrade e Dona Carolina Leuenroth de Andrade, com a qual contraiu matrimónio a 3 de janeiro de 1891, ainda estudante. 
No dia 7 de janeiro de 1892, justamente na data em que defendia a sua tese de doutorado, perante a Congregação da Faculdade de Medicina, nasceu a sua primeira filha, Dulce.  
Já começara, então, a sua vida de trabalhos e lutas. Sem fortuna, tentou primeiro manter-se na Capital Federal, montando consultório com o seu cunhado e colega Francisco Lameira de Andrade. Na época, era Ministro da Justiça o Dr. Epitácio Pessoa, genro do tio  amigo Dr. Alfredo Manso Sayão. Por indicação do Dr. Epitácio, ingressou na carreira policial, sendo nomeado Delegado de Polícia da 13a circunscrição (Catete).  
Com a saída do Epitácio do Ministério, meu pai achou de seu dever acompanhá-lo, demitindo-se do cargo de Delegado.  
A delegacia, porém, absorvera-lhe quase todo o tempo de que dispunha, com sacrifício da sua clínica incipiente. Deixado o cargo público, obviamente cresceram as dificuldades de manutenção da família. Faleceu, já, o seu sogro e amigo professor Lameira. Em pouco, resolveu deixar a Capital e transferir residência para a sua cidade natal. Vassouras, onde montou o seu consultório. 
Não tardou muito para que o seu trabalho fosse bem grande: clínica particular, serviço de assistência ao hospital local e até a satisfação de seu pequeno "fraco" pela política. 
Mas o sábio ditado que reza que; "o santo da terra não faz milagre", em pouco se evidenciou. A proporção que o trabalho aumentava, diminuía a renda, o que lhe fez pensar em nova mudança, para outras plagas. Quando o projeto se concretizou, contava já com 5 filhos (Dulce, José, João de Góes, Oswaido e Irene), tendo perdido em Vassouras outra filhinha, Ophélia. 
Em Vassouras prestara inestimáveis serviços á população pobre e a Santa Casa de Misericórdia. Houve um fato, sobretudo, nesse último estabelecimento, que teve ampla repercussão, um agente consular da Inglaterra fora acidentado e uma de suas pernas começou a gangrenar,3.Fazia-se necessária uma amputação rápida, independente de qualquer formalidade, sem a qual o paciente estaria condenado a morte certa. 
O meu pai não titubeou, assumiu inteira responsabilidade pelas consequências e fez a amputação, salvando a vida do inglês. O governo da Inglaterra, ao tomar conhecimento do caso, exprimiu oficialmente a sua gratidão ao Estabelecimento de Vassouras e mandou agraciar o meu pai.  
Para a nova mudança, foi escolhido o lugar denominado Cachoeira do Funil, na estação de mesmo nome da Estrada de Ferro Rio das Flores.  
A família ficou instalada em uma aprasível chácara próxima da estação. Os serviços de meu pai eram em um conjunto de fazendas circundantes do local, estendendo-se por uma distância que alcançava, de um lado a localidade de Porto das Flores e, do outro, a Vila de Santa Teresa de Valença. Contavam-se, entre essas fazendas, a dos Jequitibás, a da Forquilha, Bemposta, etc. 
Semanalmente, meu pai percorria a cavalo o seu roteiro, acompanhada de um arreieiro que chamávamos de "pagem". Mas o lugar era totalmente desprovido de recursos, não possuindo escola, nem farmácia. Nesse tempo, em suas horas de descanço, o nosso querido pai nos ensinava (aos três mais velho) as primeiras letras. 
E escola veio depois, criada por influência de meu pai. 
Já funcionava a escola primária de Cachoeira do Funil, numa velha casa fronteira á nossa residência, na única rua do lugarejo, rua que nada mais era que o leito alargado da estrada de ferro. Todos os dias, por ela passavam os seus trens de passageiros (um em cada sentido) e, de longe em longe os trens de carga, barulhentos, levantando após uma nuvem de poeira.  
A professora D. Maricas, solteirona, vivia no edifício da escola, em companhia dos velhos pais e de um irmão, chamado Lafayette, na época com cerca de 16 anos. Aconteceu que o Lafayette, tendo sofrido uma formidável canelada, começou a mostrar em uma das pernas ferida, que passou a contaminar o osso. Esse mal foi de tal modo se agravando, que meu pai achou que o rapaz perderia a perna, e talvez a vida, se não sofresse uma intervenção cirúrgica. Era preciso, em virtude de sintomas alarmantes, remover a parte contaminada do osso. Como a família do rapaz não dispusesse dos meios necessários que lhes permitissem procurar um centro de maiores recursos, para o caso, resolveu o meu pai operá-lo no próprio local. 
O acontecimento abalou o pacato lugarejo. A sala de aulas foi transformada em sala de cirurgia. O vendeiro, Sr. Joaquim, também solteirão, improvisou-se em anestesista.... 
Lembro-me que, de nossa casa, anciosos, ouvi o ressoar das pancadas do martelo no formão, ferramentas com que meu pai removia as lascas da tíbia contaminada do paciente... 
O certo é que, pouco tempo depois, o Lafàyettejá podia correr e saltar, com a perna completamente recuperada. Consequência, talvez, desta aventura, foi que o anestesista, Joaquim, veio a desposar a professora D. Maricas, proporcionando este acontecimento dos mais notáveis no pacato lugarejo. Como era de esperar-se, o padrinho da noiva foi meu pai.  
Aconteceu, porém, nesse lugar tão aprasível, um fato muito doloroso. A Irene, já com cercade 6 anos de idade, foi acometidade grave enfermidade e veio a falecer. 
Daí por diante, uma nuvem de tristeza sombreava constantemente o semblante sempre amável de meu pai, para o qual o lugar passou a parecer fatídico e cheio de dolorosas recordações. 
Nova mudança foi então resolvida para lugar de maiores recursos, sem prejuízo da clínica das fazendas, a Vila de Santa Teresa de Valença. Lá ficou a família bem instalada em nova chácara, na orla da Vila, fazendo fundos para a farmácia do Sr. Condeixa. Aí nasceu outra filhinha, Nair que após meses veio também a falecer. 
Em Santa Teresa a nossa permanência foi curta. Daí passamos para o pitoresco sítio do Socego, distante cerca de três kilometros da estação da Vila, na direção da estação de Taboas, em uma chave da estrada de ferro, em frente á fazenda Santo Ignácio. 
Meu pai continuou com o serviço das fazendas, menos a de Jequitibás que ficara muito distante e, ao mesmo tempo, era médico da pequena estrada de ferro Rio das Flores, da qual era diretor o engenheiro Dr. Afonso de Barros Carvalhais, que se tomou grande amigo de papai.  
No Socego vivemos alguns anos, tendo lá nascido a Placidinha, Glória e Nelson. A família já estava assim bem numerosa (sete filhos). 
Mas a vida continuava difícil e muito trabalhosa. No socego, a Dulce recebia aulas de um professor que vinha a cavalo, semanalmente. Os demais em idade escolar, ou sejam José, eu e Oswaido, frequentávamos a escola publicada Vila. Por volta de 1907, houve um grande êxodo de fazendeiros da região para São Paulo, deixando as terras esgotadas do Estado do Rio para tentar a sorte nas terras virgens do Oeste Paulista. Papai animou-se com  exemplo de alguns amigos e contagiou-se com o entusiasmo pioneiro, que andava no ar. Daí resolveu-se também, a mudar para São Paulo. 
Resolvida a mudança, foram todos para Vassouras, onde permaneceram por três meses, enquanto o seu chefe ia a São Paulo arrumar uma residência definitiva. Por informações e, talvez, por influência do Comendador Borges (casado em Vassouras) e já estabelecido em Avaré, foi esta a cidade escolhida para a nova residência. E lá chegamos em princípio de 1907.  
Começou aí nova vida, em novo estilo, no dinâmico estilo paulista. Dentro de pouco tempo, meu pai tinha uma grande clientela, principalmente entre os mais humildes.  
 
Houve, a princípio uma grande campanha em cooperação com o Dr. Emílio Ribas para a debelação da epidemia de tracoma. Depois, além da clínica particular, os serviços de assistência gratuita á Santa Casa de Misericórdia e ao Hospital São Vicente de Paula.
A família aí recebeu mais os acréscimos dos filhos; filha (2), Doith, Armando e Dinah, tendo as três primeiras falecidas na primeira infância. 
Em Avaré, o meu pai permaneceu 17 anos, na plenitude da sua vida (dos 37 aos 54 anos). Foi por excelência, o médico da pobresa, pois nas suas contas de serviços profissionais igualava os ricos aos pobres. Ingressou, também, na política local, tendo sido eleito Vereador e Presidente da Câmara. 
Em 1924, transferiu residência para São João da Boa Vista, por motivo de saúde de Mamãe, que então sofria de gastralgia que deveria ser tratada com as águas da Prata.  
Em São João, a vida até então, mais ou menos folgada passou novamente a ficar difícil, pela necessidade de engariar nova clientela, e concorrer com os médicos locais, quase todos ricos, que exerciam a profissão quase como um hoby. 
Mais ou menos ao cabo de três anos, com a minha mãe já restabelecida, ficou resolvida, finalmente, a mudança para São Paulo (capital). 
Ingressou no serviço público, no penoso labor de fiscalização de carnes nos açougues de São Bernardo, e em seguida, na fiscalização da higiene de trabalho. 
Ao atingir a idade de 68 anos, foi aposentado compulsoriamente, conforme prescreve a lei, passando a viver exclusivamente de sua clínica particular e dos magros proventos de uma aposentadoria com poucos anos de serviços públicos. 
Aos 72 anos de idade, em virtude de uma queda, fraturou o colo do fémur, o que o obrigou a tratamento penoso e demorado. 
Daí por diante a sua saúde nunca se refez por completo, vindo a falecer a 11 de abril de 1947, com 77 anos de idade. 
Como se depreende deste sucinto relato, a sua vida foi toda dedicada ao trabalho e á família.  
Pela sua grande inteligência e cultura, poderia brilhar em qualquer ambiente. Entretanto, foi sempre modesto, mas de coração incomensurável. Caráter cristalino, nunca transigiu o cumprimento do dever. Em toda a sua vida, nunca se pode descobrir um deslise, pequeno que fosse, que pudesse dar ensejo á crítica malévola. Espírito e vocação patriarchal, nunca se omitiu junto aos filhos e parentes. Os seus conselhos eram os mais sábios e sinceros. Em suas sentenças confiavam todos os descendentes e afins, certos de que representavam a melhor solução para dirimir as dúvidas.         
Observações: Dr. João de Góes Manso Sayão e Dona Placídia Andrade Sayão tiveram quatorze filhos, muitos dos quais faleceram em tenra idade. Em 1934 abriu consultório em sua casa na rua Nossa Senhora da Lapa, onde atendeu até sua morte. Também atendia gratuitamente dois dias por semana a todas as pessoas que não tinham como pagar consultas médicas, fornecendo inclusive remédios. Nos aniversários dos parentes, filhos e netos (como eu), fazia questão de comparecer e levar um envelope uma nota novinha, e fazia um belo discurso à mesa. Luiz Roberto Sayão – neto.
 
*João de Góes Manso Sayão Filho: filho do Dr. João de Góes Manso Sayão e de Dona Placídia Andrade.  
Este texto foi originalmente escrito em 1965.

 
 
 
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